De passagem

Passo, passo.
Pára, respira. Passo, passo.
Passo árvore, passo pedra, passo rio.
Passa tempo, conversa, passa frio.
Deslizo as mãos na grama,
encontram-se as ondas nas pedras.
As estrelas sobre o céu,
mãos sobre cintura.
E lábios sobre outros,
passam.
Passo, passo.
Andam os pés na areia úmida,
ruidosamente.
Tudo passa, agora, menos estrela cadente.

Uns Olhos

Em meio à minha tristeza,
Conheci uns olhos.
Uns olhos de mel,
Uns olhos doces, carinhosos,
Cheios de uma beleza
Que não encontro há tempo
Nos olhos que a vida me trouxe.

Ai, esses olhos joviais
Não são tão tristes quanto os meus,
Nem tão felizes quanto queriam,
Mas brilham no breu e na bruma
Da minha desilusão...
Em sua presença as conversas são leves, até nos assuntos pesados. Os beijos são leves. Os abraços. Os carinhos. Tudo nesses momentos parece ser fácil, por ser tão natural. Deixa-me numa espécie de estupor, quase que bêbada, pois não há como se afligir estando em sua presença, debaixo de arvores, na sombra, com os dedos entrelaçados. Começo a me sentir dependente, por mais que lute contra o sentimento. Cada vez mais quero uma dose dele, a todo instante. Pergunto-me quantas doses ainda me serão servidas até que digam “já teve demais”. Por hora me contento com outras. De medo, de amizade, de culpa, de resignação, de irmandade... E claro, constantes doses de saudade, que é o que me restará quando as dele enfim acabarem.

Dêem-me um remédio pra saudade

Dêem-me um remédio pra saudade,
Um comprimido de amor
E duas doses de carinho.
Abraço 10mg, beijo 3mg,
Numa solução de vinho tinto.

Essa menininha...

Ai! Essa menininha
Por quem me perdi de amores.
Ai! Essa menininha
Com seu silêncio,
Com seu jeitinho de dizer
Que não me quer,
E que não quer me magoar.

Ai! Essa menininha
Com seus carinhos,
Seus espinhos,
Que são vinhos.
Que são o meu suplício,
Que são a minha alegria,

Ai! Essa menininha
Tira meu sono,
Tira minha paz,
Tira meu ar,
E não sabe o bem que faz,
E não sabe o mal que me faz,
E não sabe a dor que me traz,
Naqueles olhos de anil,
Naquele jeitinho gentil,
Naquele jeitinho sutil,
Que toda mulher deveria ter.

Ai! Essa menininha!
Quem me dera
Fosse minha!
Minha menininha!
Os fantasmas de antigos amores
Me assombram, inválidos
São frios, não são vivos
Não têm cor, são de cinzas pálidos.
Tudo que sai desse algo cinzento
São palavras e carícias,
Vazias de sentimento
Impulsos do momento, desafeto
Me iludem ser algo de mais concreto.
Porque eu acredito?
Alguns me tem tão bruscamente
De um sentimento efêmero, somente
Mas que me consome, pois passa,
Sendo ainda assim marcante.
Pequenos gestos ganham outra dimensão.
Ah, que grande erro...
Que alimenta a crescente ilusão
Que me faz sair atrás de cores
Em busca de mais amores.
E o sol é meu único companheiro
Que ameniza a lágrima amarga,
Reflexo de uma sobrecarga.

Balada Desesperada

Não é só saudade,
Tua falta me consome,
E com que ansiedade
Quero gritar teu nome,
Pela primeira vez, numa tarde bela.
Marcela! Marcela!

Mas se foi a beleza,
A primavera se desfez numa noite chuvosa.
Hei de amargar a tristeza
Na lembrança da tua voz melodiosa,
E cantar baixinho e com cautela:
Marcela! Marcela!

Pudesse, eu escreveria
O poema verdadeiro, rico de setimento,
O qual, o coração, te tocaria
E alegraria o meu, cinzento...
Então eu cantaria em minha cela:
Marcela! Marcela!